A Ilha

E foi lá, naquela Ilha que encontrei o amor. Não esse amor de mentira que sempre experimentei, o amor de verdade, esse que nos preenche, nos completa, faz a terra virar ar e faz o ar virar o cheiro inebriante que dela exala.

Meu coração na Ilha ficou. Atado para sempre à sua geografia apaixonante, que provoca e desperta a curiosidade de explorador. Conquistado por sua beleza exótica que me faz esquecer que o mundo é mais que a Ilha. E a Ilha se faz mundo dessa forma.

E nesse mundo Ilha o tempo deixa de existir. Seu calor aconchegante desrespeita a realidade e quebra a barreira do espaço-tempo. Sua atmosfera lúdica me toma e arrebata meus receios e temores.

Nessa Ilha que nem Tom nem Vinicius poderiam descrever de forma apropriada eu descobri a felicidade em sua forma pura e viceral. Naufrago em suas terras para sempre serei, apaixonado por seus encantos para sempre serei. Dela, para sempre serei.

Te amo. Um feliz aniversário.

POSTED BY Hades ON 07.26.06 @ 08:09 am | 7 Comments

Casa nova.

Bem vindos ao novo Vai vc que eu to cansado. Os textos do outro blog foram importados pra cá, mas infelizmente os comentários não. Ainda estou considerando a possibilidade de adicionar cada comentário feito do antigo endereço manualmente, embora eu esteja inclinado a não faze-lo por pura preguiça.

Obrigado pela preferencia.

POSTED BY Hades ON @ 08:06 am | 0 Comments

¬¬

Hades manda um email para a acessoria de impressa da cantora Maria Rita:

Olá, gostaria de saber as datas dos próximos shows em São Paulo.

Grato.

Hades.

Acessoria de imprensa da cantora Maria Rita responde:

07.07 Montreux
08.07 Huelva
09.07 Cartagena
11.07 Valladolid
14.07 Stuttgart
16.Den Haag

Hades com cara de idiota responde ao email:

Acho que vc não compreendeu minha pergunta… Os próximos shows da
Maria Rita EM SÃO PAULO.

Grato novamente.

Acessoria de imprensa da cantora Maria Rita responde:

Nao temos data ainda!

Depois me perguntam pq eu sou tão intolerante.

POSTED BY Hades ON 07.24.06 @ 11:26 am | 0 Comments

Fazendo mais que o impossível.

Ao Banco Real, e a quem mais possa interessar.

É engraçado como a gente nunca espera se decepcionar com algo. Por vezes confiamos demais no que gostamos. Ontem me senti decepcionado.

Decepcionado pois sempre confiei no Banco Real. Parece bobeira, confiar em um banco, coisa de tolo mesmo. Mas a verdade é que a despeito do esforço de muitos para me provar que o banco X ou o Y são melhores que o Real, eu sempre simpatizei com ele.

Simpatizo com ele porque ele é verde. E eu gosto muito de verde. Também gosto da atitude ambientalista do banco, não conheço mais nenhum banco que utilize papel reciclado em todas as suas correspondências, extratos, impressoras das agências. E ele ainda tem algo de moderno. Não sei bem o que é, talvez o netbanking muito bem formatado e simples de se utilizar.

Mas ontem eu me decepcionei. Todo banco hoje em dia usa uma tabela de senhas para permitir que operações mais arriscadas sejam realizadas com segurança. Recebi a minha tabela de senhas pelo correio e logo fui destravá-la pelo netbanking.

Abri o meu sistema operacional favorito, entrei no meu navegador favorito e tentei destravar a tabela de senhas. Não consegui. O sistema do banco acusava erro de senha. Esse foi o início de quatro dias de tentativa em destravar a tal tabela de senhas.

E nesses quatro dias eu tentei de tudo que me era possível. Utilizei o serviço telefônico do banco que me confirmava que a senha estava correta, liguei para os mais diversos atendimentos, atrasei uma conta em 2 dias e ainda sim, nada de destravar a tão essencial tabela de senhas.

Até que ontem liguei para o atendimento telefônico do Internet Banking e consegui falar com alguém que finalmente encontrou o problema, que não é meu como veremos a seguir. O problema senhores, é que o meu sistema operacional favorito é o SUSE Linux e meu navegador favorito o Mozilla Firefox, e segunda a atendente, o sistema de cadastro da tabela de senhas - nas palavras dela – por contrato só funciona com o Internet Explorer.

Não tenho conhecimento de contratos que me obriguem a utilização do Internet Explorer para acessar o Real Netbanking, mesmo porque eu sempre utilizei ele pelo Firefox e nunca tive nenhum tipo de problema.

Foi decepcionante ver um banco tão moderno e que me agrada tanto tratar um problema de forma tão leviana. Não sei os motivos que levaram o banco a fazer com que aquela página em especial só pudesse ser utilizada por usuários do Windows e Internet Explorer, me senti desprezado como cliente, excluído até, o banco não teve sequer o cuidado de deixar um aviso sobre a impossibilidade de se utilizar outros navegadores que não o IE na página de cadastro da tabela de senha.

Destravei a tabela usando o IE e paguei minha conta com os devidos juros. Mas a decepção perdura bem como o receio de passar por isso novamente. De um banco que diz fazer mais que o impossível por seus clientes, ontem tudo que eu esperava era o simples e mundano possível.

POSTED BY Hades ON @ 11:26 am | 0 Comments

Devagar. Quase parando.

O brasileiro é uma figura engraçada. Não que todos sejam comediantes ou tenham uma veia cômica superior a de população de qualquer outro país. O engraçado, e muitas vezes trágico, é a forma como se seleciona as prioridades.

Por exemplo, é de censo comum que nada funciona direito antes do carnaval. É quase como um dogma, ou uma lei, ou até uma expressão gênica. O Brasil segue procrastinando por Janeiro, em Fevereiro a coisa toda para de vez. Operação de transplante de rim? Deixa pra depois do carnaval. Passeata pela moralidade? Agenda lá pra Maio!!!

Em época de Copa do Mundo a coisa fica pior ainda. Quando a seleção entra em campo, o tempo congela. Os pássaros deixam de voar, a chuva de cair, os rios de correr e as farmácias de funcionar. A “seleção canarinho” (Deus, eu escrevi isso mesmo!?) é quase uma força física bizarra que faz com que o Brasil pare… Completamente.

Temos ainda as férias escolares de Julho. Não importa se estuda-se ou não, assume-se que se algo tão fundamental quanto o ensino pode para por um mês, então todo o resto também pode.

E no Brasil é assim. Segue-se dando prioridade para a preguiça. Festeja-se o carnaval por dias a fio sem parar um minuto sequer, mas não se movimento um único músculo, especialmente o liso que fica dentro do crânio, na hora de se exigir práticas políticas justas.

Hinos de “90 milhões em ação” ou “eu sou brasileiro com muito orgulho” são entoados aos quatro cantos do país, mas só quando se trata de futebol. Não se canta o hino da educação ou da cultura… A não ser que ele tenha “boladona”, “glamurosa” ou “até o chão” na letra.

Em um país regido pela primeira lei de Newton e que tem como ícone máximo de conduta um jogador de futebol, só nos resta torcer de verde e amarelo, para que o samba do juízo um dia toque e faça sucesso.

POSTED BY Hades ON @ 11:26 am | 0 Comments

Respostas.

Sobre a questão fundamental do ovo, da galinha e de tudo mais: Na verdade foi o ovo, tendo em vista que os répteis dos quais as aves descendem já botavam ovos e os anfíbios e peixes antes deles tb. No entanto as galinhas são a forma prática e descomplicada que os ovos encontraram para se reproduzirem (e essa frase é do Sr. Richard Dawkins).

Sobre a questão fundamental da vida, do universo e tudo o mais ou simplesmente “De onde viemos e para onde vamos”: Segundo Douglas Adams, a resposta dessa pergunta é 42 (?). No entanto, essa resposta é outra daquelas que seguem as leis relativescas. O Lula responderia “vim de São Bernardo, mas nun sei pra onde vou companheiro”, outras pessoas com bem menos educação, dependendo do contexto, poderiam responder “estou vindo da casa da sua irmã e indo pra casa da sua mãe”.

Sobe a questão existencial: Ser, sempre. A não ser que exista algum inconveniente, neste caso, não ser.

Sobre questões existenciais divinas: A existência de Deus está diretamente relacionada com sua necessidade em acreditar nele.

Sobre vida extraterrestre: Matematicamente falando sim, cientificamente talvez, religiosamente jamais.

Sobre o deslocamento linear das filas (independente de quais sejam): O problema todo está em como as pessoas encaram o movimento das filas. Essas são regidas por outro efeito físico, o efeito borboleta. O simples fato de vc mudar de fila, faz com que a que estava andando acabe parando enquanto a que estava parada passe a andar. Não vamos entrar em detalhes mais apurados, as filas em si são tema de extensos estudos e os resultados obtidos até hoje indicam que elas são boas condutoras de stresse e são muito afetadas pela lei de Murph.

Sobre a veracidade do homem na lua: Que seres humanos pisaram na Lua, qualquer pessoa de bom senso acredita, agora, se era homem… Vai saber, isso é pessoal demais.

Sobre Deuses astronautas: Nenhuma mitologia corrobora com tal afirmação, a não ser que se leve em consideração as possíveis “viagens” feitas pelos Deuses, nesse caso devemos levar em consideração a quantidade de ópio (fala sério, alguém acha mesmo que eles tomavam “néctar” ou coisa do tipo?) ingerido.

Sobre relações biblicamente incestuosas: Ok, se desconsiderarmos todos os indícios genéticos, biológicos, fisiológico e evolutivos que claramente tornam impossível a simples idéia de que dois seres humanos vindos do nada (eles não se enquadram na segunda questão), sozinhos (e com muita disposição) povoaram um planeta todo, a suposição das múltiplas relações incestuosas estaria correta. Vale notar que relações incestuosas são tema recorrente na bíblia. Talvez Deus (o que se enquadra na quarta questão) tenha síndrome de édipo e queira compartilhar com seus fieis.

Por motivos claros vou ignorar a questão sobre Bia Falcão… A não ser que vc mude para “Odete Roitman”, nesse caso sou obrigado a responder “sei lá porra”.

Sobre o processo degenerativo de anões: Sim, eles morrem. Mas são tão pequenos que a velocidade de decomposição é absurdamente maior do que em uma pessoa comum. A tenologia atual não é capaz de filmar o processo para estudos mais detalhados.

POSTED BY Hades ON @ 11:25 am | 0 Comments

Tostines relativado !!!

B. diz: "Amor, preciso te perguntar algo muito sério".

Hades quase fazendo xixi nas calças de tanto medo da pergunta responde: "Pode perguntar meu anjo".

B. justifica: "Desculpa te perguntar isso, espero que não fique chateado mas PRECISO saber vc entende?

Hades pensando em todas as possíveis burradas que pode ter cometido responde: "Manda, pode falar"

B. pergunta: "Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais"?

Hades em surto responde:

Na verdade tudo entra na preposição relativesca de Einstein.

O segredo no caso é o ponto de vista que o observador leva como referencia primária.

Em termos práticos pode-se dizer que ambas as preposições estão corretas. No entanto, podemos analisar isso de forma específica nos colocando no lugar dos possíveis observadores
Dessa forma, se formos o fabricante do produto, estamos olhando do ponto de vista comercio-lucrativo da coisa, ou seja, pensamos em números de venda.

O observador fabricante então leva em consideração que o produto vende muito e, por vender tanto só podemos acreditar que ele venda em velocidade exacerbada.

Dessa forma, o tempo que o produto em questão (Tostines) leva para sair da fábrica e chegar até a casa do outro observador (o consumidor, que será abordado em alguns minutos) é menor em relação ao tempo que o produto leva para perder sua propriedade "frisquinho".

Portanto, do ponto de vista do observador-fabricante, o produto é fresquinho pq vende mais.
No entanto, como estamos tratando de um assunto absolutamente passível às leis da relatividade restrita (consideremos apenas que o produto se move de forma linear e com velocidade mais ou menos constante), o ponto de vista do outro observador, o consumidor, é proporcionalmente inverso ao do observador-fabricante.

Ou seja, para o consumidor, o que vale é a característica "fresquinho" do produto. O consumidor sabe que enquanto "fresquinho" o produto terá um valor de mercado maior.

O valor de mercado maior torna o produto muito mais procurado, o que impulsiona a tal venda em velocidade exacerbada que tratamos a alguns parágrafos atrás.

Dessa forma, para o consumidor, o produto vende mais porque é "fresquinho".

Evidente que ambos os pontos de vista estão absolutamente corretos (como se é de esperar em qualquer coisa que se enquadre na teoria da relatividade, como o biscoito Tostines) e portanto, a sua pergunta não faz o menor sentido em termos práticos, mas proporciona um ótimo exercício criativo.

POSTED BY Hades ON @ 11:25 am | 0 Comments

Cinema

E pelo caminho ele seguiu orientado pela bússola que encontrara. O abismo já havia ficado para trás a muito tempo, mas ele ainda sofria pela lembrança de sua repugnante existência.

Caminhava agora por uma estrada de asfalto mal conservado. Ao seu redor apenas a desolação de um mundo vazio e de paisagem cinza. Cansado de caminhar tanto, sentou-se no meio da estrada e observou o horizonte.

E foi observando o horizonte que ele notou algo que não se enquadrava em sua realidade devastada. Um brilho amarelo e quente emanava daquela linha que cortava a terra e o céu. A princípio achou ser o Sol, mas lembrou que este jazia no firmamento como uma bola branca e gelada encoberto pelas nuvens, pairando sobre sua cabeça.

Extraindo de si as últimas forças que lhe restavam levantou-se e correu. O tempo não fazia mais sentido, talvez tenha corrido sem parar por dias ou até meses. Mas a certeza era algo que se perdera a muito em alguma curva tortuosa do caminho que percorreu.

Ali, no meio do nada, erguia-se um prédio vermelho com detalhes dourados. Não parou para notar as formas ou tomar nota do que estava escrito. Apenas caminhou em sua direção e adentrou o edifício.

O lugar todo era uma enorme sala escura e no meio desta sala existia uma única cadeira. E sentado na cadeira ele passou pela maior experiência de sua simplória existência. A sala se encheu da claridade emanada pela imagem que agora se projetava na parede.

E ali na parede estava o que ele sempre buscou, a paisagem iluminada pelo Sol, o gramado verde pintado pelo azul do céu. Ali na parede estava o mundo lúdico que ele sempre imaginou.

O tempo se perdeu, as lembranças do abismo deixaram de existir, o mundo fora do cinema deixou de ser real. Ali naquele espaço só dele a paz se fez sentir. O único ponto acolhedor de um mundo cruel e cinza.

O cinema tornou-se seu e ele se entregou ao cinema. E nada naquele mundo cruel que os circundava seria capaz de destruir o calor que emanou de um coração que, finalmente, encontrara um motivo para viver.

POSTED BY Hades ON @ 11:24 am | 0 Comments

De como ele chegou ao Tártaro…

O texto não é meu, mas como fala de como a luz dos meus olhos chegou até mim, estou postando-o aqui…

Um instante de vida

Ínfimo diante dos grandes deuses. Completamente despreparado para uma luta contra qualquer dos mais fracos habitantes do Olimpo. Um pequeno pedaço de nada, diante do poder do menor dos menores senhores da vida. Assim era nosso herói. Um rosto sem traços, um corpo deslizando nas sombras, um homem sem nome. Alguém que buscou sua felicidade por toda vida e a descobriu no colo de uma deusa.

Sua audácia justificava-se na pura necessidade de amar. Na vontade de realizar seu desejo, mesmo que lhe custasse a própria vida. Disposto a entregar corpo e espírito, repetiu a si mesmo, antes de partir: “E de que vale a minha vida, se não posso sentir sua respiração junto de mim? Por que viver se não por ela?”

Um homem sem destino, pois este já o abandonara há dias, quando havia tomado sua teimosa decisão de desafiar o poderoso Hades. Descer ao inferno, andar sobre as rochas incandescentes e se perder em meio as cavernas do Tártaro, lhe parecia um preço ridículo a se pagar pelo amor de Perséfone. Queimar sua alma no fogo da insanidade não seria pior que viver sem o olhar de sua deusa.

Um dia Hades a tomou de Zeus. Nosso herói estava convencido de que a tomaria em seu braços e a beijaria. Um segundo. Era tudo que ele queria. Um segundo e sua alma aquiesceria em mergulhar num poço de lava ou mesmo em ser aprisionada e chorar eternamente lágrimas secas, fagulhas ardentes nas cavidades que outrora carregaram olhos brilhantes e cheios de vida. Enquanto Hades detinha o poder e a sagacidade, esse homem tomado pela loucura, conhecia apenas sua própria e estúpida coragem e nada mais.

Perséfone detinha a beleza deslumbrante que era capaz de cegar até mesmo um semi-deus, o que dizer então de um simples ser humano? No entanto ele se achava digno daquele divino amor, porque o sentia por todos os lados e com tal intensidade, que se deixou levar ao que seria o seu fim. Caronte foi além de condutor, testemunha de sua viagem até os domínios do invisível.

“Não há vida sem o teu olhar. Não há música sem tua voz. Sem tua pele, não tenho serventia para minhas mãos. Para que meus lábios se não posso sentir a maciez de sua boca? Deixe-me vê-la Perséfone! Deixe-me sentir o frescor de seu hálito soprando-me a vida da qual nunca vivi. Permita-me olhar teu corpo, saciar meu desejo, mesmo que no instante seguinte eu seja enviado para o sofrimento eterno, sob o açoite de Hades. Seja minha para sempre, mesmo que seja apenas em minha mente. Perséfone… Me tome como seu. Que Hades me mate, decrete meu fim, mas que não me prive desse momento. Amo-te como nenhum deus jamais te amou ou amará. Tenho-te em minha carne, em meu sangue e em minha própria essência. Nasci para te amar e se te amar não puder, que me ceifem a vida em troca de um segundo que justifique minha passagem pela terra.”

E essas foram as últimas palavras de nosso herói. Uma prece feita ao seu grande e único amor. Uma súplica de vida e de morte. Ele havia nascido para amá-la e amando estava, quando deu seu último suspiro em vida, nos braços de Perséfone.

Nunca mais se soube de seu paradeiro. Dizem que Hades não teve compaixão, mesmo porque, esse sentimento nunca lhe foi familiar. Bafos quentes vindos do subterrâneo, trouxeram a notícia, ou talvez seria melhor dizer a lenda, que naquela noite, por um pequeno instante, as trevas cederam lugar ao brilho intenso de um sorriso que iluminou até mesmo os cantos mais longínquos e profundos do Tártaro. E que a voz de Perséfone se fez ouvir em um canto de inimaginável beleza.

por Marcelo Amado

POSTED BY Hades ON @ 11:24 am | 0 Comments

Maiclê

Engraçado como às vezes desejamos coisas boas às pessoas que nem sequer conhecemos. Maiclê me provoca isso toda vez que a vejo. Quem é ela? Na verdade é ele. Ou não…

Maiclê é um travesti muito, muito pobre. Deve ter em torno de 38/40 anos, talvez seja mais nova e as doenças a deixaram mais velha. Morena, cabelos curtos, por vezes loiro, por vezes castanho escuro (queimado de tanta tintura), com olhos pequenos e bem escuros, rosto judiado e manchado com tons arroxeados, as verrugas dão uma aparência ainda pior a ele. Os dentes, ela só tem os de baixo, que insistem em ficar para fora dos lábios quando ela deixa a boca entre aberta.

Não me lembro bem quando conheci Maiclê. Mas creio que faz uns quatro anos, na época em que eu era voluntária no hospital municipal. Na verdade, quem disse que me viu no hospital foi ela mesma, na primeira vez em que nos falamos, em um fim de tarde, quando eu chegava em casa:

- Moça, por favor. Não precisa ter medo não. É que… Sabe, eu não gosto de pedir, mas não tenho dinheiro, estou com fome, você não teria um copo de leite?

- Bem, estou chegando agora. Mas verei o que posso arranjar.

Entrei, peguei o maior copo que tinha e como estava calor, enchi de leite gelado e misturei Nescau. A mesa estava posta, sinal de que acabavam de tomar café. Fiz dois lanches de pão com maionese e mortadela e levei até o portão. Quando Maiclê viu os lanches, seus olhos brilharam. Comeu aqueles pães como se fizessem parte de um banquete, e me agradeceu interminavelmente:

- Obrigada moça, muito obrigada!

- Nada, não foi nada. Ainda tem fome? Quer mais?

- Não, obrigada. Deus lhe pague.

Nos despedimos, mas antes de ir embora ela me olhou…

- Já vi estes olhos bonitos antes…

- É mesmo? Onde?

- Não sei. Mas já vi.

- Hmmm… Você esteve nos hospital recentemente? Sou voluntária lá.

- Sim, estive. É, é mesmo!!! Você é uma “daquelas moças de rosa!”.

Trocamos mais algumas palavras, eu disse meu nome, ela o dela e depois nos despedimos.

Passados uns dois meses, ao chegar em casa, minha mãe estava meio assustada. Perguntou onde e com quem eu estava andando, disse que “um travesti muito feio” tinha vindo me procurar.

Eu ri e contei a história, provavelmente ela queria comida outra vez. Minha mãe também sorriu, nesta época, muitas “pessoas estranhas” sabiam meu nome e vinham me abraçar quando me encontravam na rua. Mamãe já estava até se acostumando, só ficou meio receosa porque foi a primeira vez que tocavam a campainha de casa.

Nunca mais vi Maiclê. Saí do hospital, entrei na faculdade e segui minha vida. No início do segundo ano de faculdade, fui ao cinema com o Hades. Quando ele me deixava na porta de casa, eu não encontrava a chave, por isso permaneci um tempo dentro do carro. Maiclê chegou de repente. Até nos assustou um pouco. Tinha os olhos tristes, tinha fome. Como certamente não havia nada em casa, eu disse que infelizmente não poderia ajudá-la, e que também não tinha dinheiro (o que era verdade). Hades então tirou, o troco do cinema da carteira, se não me engano seis reais e entregou a ela. Nossa, como Hades foi abençoado aquela noite!!

E mais uma vez Maiclê “tomou um chá de sumiço”. Um ano depois, por volta das 17h, quando abria meu portão, vi um corpo magro correndo em minha direção. Notei também que o guarda noturno estava pronto para impedir. Fiz um gesto negativo para ele e deixei Maiclê se aproximar:

- Oi moça bonita! Hoje eu não vim pedir nada, vim apenas me despedir. Consegui uma vaga em uma instituição para aidéticos no interior de SP. Estou indo amanhã. Vim agradecer e desejar que Deus a abençoe sempre. E que Deus abençõe também seu companheiro, aquela noite eu comi graças a ele…

Beijou meu rosto, me abraçou e foi embora. Fiquei um tempo parada, observando aquele montinho de ossos se afastar e pensando: “Nossa, ela ainda se lembra do Hades, já faz mais de um ano!” Quando estava abrindo meu portão, notei que alguns vizinhos e o guarda noturno me olhavam espantados. "Danem-se", pensei eu.

E nunca mais vi Maiclê. Ontem, ao chegar ela reapareceu. Incrivelmente mais magra, com o rosto mais manchado. Foi transferida da instituição porque a tuberculose piorou e ela precisava de um lugar com mais recursos. Teve alta e precisava voltar para o interior. Novamente tinha fome. Minha vó estava fora, provavelmente eu teria de almoçar um miojo. Dei os únicos quatro reais que eu tinha na carteira. Ela me agradeceu com os olhos cheios de água, me beijou, abraçou, disse que eu estava ainda mais bonita, e desejou que eu fosse sempre abençoada.

Não conheço Maiclê. Não sei se ela roubou, matou, agrediu, usou drogas. Não sei se mata, se rouba, se agride, se usa drogas. Não sei se um dia vai chegar e me assaltar, prefiro pensar que não. Não sei, e nem quero saber. Só sei aquilo vejo. E vejo uma pessoa para quem o Estado não dá as mínimas condições de saúde e alimentação. Uma pessoa sem família, para quem as pessoas olham com repulsa e medo. Alguém sem futuro e que certamente não faz questão de lembrar do passado. Alguém que não se esqueceu de míseros seis reais dados em uma noite qualquer, e que ainda se lembra “dos olhos bonitos” que lhe ofereceram um pão um mortadela.

Sei que Maiclê jamais lerá isso, mas desejo a ela pouco sofrimento, e uma vida mais digna no caminho que ainda lhe resta percorrer…

POSTED BY Hades ON @ 11:24 am | 2 Comments



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